Diário de viagem

Arménia

22 a 30 de julho de 2026

Nove dias na primeira nação que fez do cristianismo religião de Estado. Um grupo português atravessou os planaltos, entrou nos mosteiros e leu o país pelas suas pedras. Isto é o que de lá trouxemos.

9 diasErevan, Goris, Dilijan
12 lugaresMosteiros, templos, museus
3 de 3Sítios UNESCO da Arménia
1 grupoCom acompanhamento espiritual

Porque se vai

«As peregrinações servem três fins que se complementam uns aos outros: a busca espiritual, que é a razão do caminho; o encontro com outras realidades monásticas, que nos recorda a extensão e a variedade da Igreja de Cristo; e o estudo da arte, da cultura, da literatura, da música e da arquitectura, em que a fé deixou um testemunho duradouro.»
Firmino Morgado, escrito em Haghartsin, 27 de julho de 2026
Busca

A razão do caminho. Houve missa quase todos os dias, ao ar livre, em capelas de mil anos, à mesa de uma varanda de montanha.

Encontro

Uma Igreja que se separou de Roma e de Constantinopla no século V e desde então guarda a sua liturgia, o seu canto e o seu calendário.

Estudo

Onze séculos de arquitectura, do templo pagão de Garni aos frescos de Haghpat, lidos no sítio e explicados no sítio.

O caminho

Onde a fé se tornou nação

Em 301, o rei Trdat III proclamou o cristianismo religião do reino. Nenhum Estado o tinha feito antes. Tudo o que se visita na Arménia parte daí, e quase tudo o comemora.

O itinerário desenhou-se em torno desse acontecimento e da sua descendência: o poço onde o homem que converteu o rei esteve preso treze anos, a catedral que ele fundou, as escolas que copiaram os manuscritos, os mosteiros que a montanha protegeu quando o vale ardia. Sete capítulos, por ordem de chegada.

Capítulo um

Erevan e o Matenadaram

A cidade recebeu-nos com a escultura de Yervand Kochar, duas figuras entrelaçadas numa espiral com um vazio no lugar do coração, preenchido por prédios de habitação. Chama-se «Melancolia» e é uma das peças maiores da escultura arménia do século XX.

Subimos depois a colina da avenida Mashtots, até ao Matenadaram, que em arménio quer dizer depósito de manuscritos. É a maior colecção de manuscritos arménios do mundo, herdeira da biblioteca de Etchmiadzin já atestada no século V, saqueada e dispersa vezes sem conta, e reunida de novo em Erevan em 1939. À porta está Mesrop Mashtots, que criou o alfabeto arménio em 405, com o seu discípulo Koriun.

Escultura Melancolia, de Yervand Kochar, em Erevan
«Melancolia», de Yervand Kochar (1899-1979).
Manuscrito arménio iluminado no Matenadaram
Um dos manuscritos do Matenadaram.
Miniatura de evangelista num manuscrito arménio
Miniatura de evangelista, com a mesa de trabalho do copista.

Capítulo dois

Khor Virap, à vista do Ararat

Khor Virap quer dizer poço profundo, e o nome vem da masmorra que está por baixo da igreja. Foi ali, diz a tradição, que Trdat III mandou lançar Gregório, o Iluminador, por se recusar a sacrificar aos deuses. Gregório sobreviveu treze anos no poço, alimentado em segredo por uma viúva. O rei adoeceu, mandou-o libertar, foi curado por ele e converteu-se. Em 301 o cristianismo tornava-se religião do reino.

O lugar corresponde também a Artaxata, capital fundada por volta de 180 a.C., cujo traçado Plutarco atribui a Aníbal. E fica a trinta quilómetros de Erevan, encostado à fronteira turca, com o Ararat inteiro à frente, tão perto que parece pertencer ao país que já o não tem.

O mosteiro de Khor Virap na planície do Ararat
Khor Virap, sobre a planície.
O Monte Ararat visto da Arménia
O Ararat, do lado de lá da fronteira.

Capítulo três

Garni e Geghard

Garni é o único templo greco-romano que sobreviveu no Cáucaso. Ergueu-o por volta de 77 d.C. o rei Trdat I, o mesmo que fora a Roma em 66 receber a coroa das mãos de Nero e que terá voltado com dinheiro e artífices romanos. Vinte e quatro colunas jónicas em basalto, sobre um pódio alto, dedicadas a Mihr, o deus solar. Depois da conversão do reino ficou como residência de Verão dos reis, e foi isso que provavelmente o salvou.

No desfiladeiro por baixo, o basalto arrefeceu em colunas verticais a que chamam a Sinfonia das Pedras. Mais acima está Geghard, meio construído e meio escavado na rocha viva, com capelas, sacristias e um baptistério abertos a cinzel na montanha. É Património Mundial, e guardou durante séculos a lança que dá nome ao mosteiro.

Templo de Garni, na Arménia
O templo de Garni, século I.
Khachkars esculpidos na parede de rocha em Geghard
Em Geghard, as cruzes são abertas na própria parede da montanha.
Portal esculpido do mosteiro de Geghard
Portal de Geghard.
Cruz esculpida na rocha em Geghard
Cruz aberta na rocha, na capela escavada.
Interior do mosteiro de Geghard com velas acesas
Interior, à luz das velas.
Colunas de basalto do desfiladeiro de Garni, com o grupo à escala na base
A Sinfonia das Pedras, no desfiladeiro do Azat. O basalto arrefeceu em colunas verticais e o leque abre-se por cima de quem passa. O grupo, em baixo, dá a medida.

Capítulo quatro

Zvartnots e Etchmiadzin

Zvartnots, o templo dos anjos vigilantes, foi a obra mais ambiciosa que a arquitectura arménia tentou. Erguido entre 641 e 652 pelo Catholicos Nersés III, o Construtor, no lugar onde a tradição situa o reencontro de Gregório com o rei. Planta circular, um tetraconque inscrito num deambulatório anelar, três tambores decrescentes coroados por cúpula, capitéis com águias. Caiu por volta do século X, quase de certeza num terramoto, e ficou soterrado até às escavações de 1900.

A poucos quilómetros está Etchmiadzin, que quer dizer «o Unigénito desceu». É a Sé-Mãe da Igreja Apostólica Arménia e é habitualmente apontada como a primeira catedral do mundo cristão. Gregório fundou-a com Trdat III em 303, no sítio que, segundo a visão, Cristo lhe indicara com um martelo de ouro. O que hoje se vê é sobretudo a obra dos anos 1620, com o campanário de 1653 e as rotundas laterais de 1682.

Arcadas reconstruídas do templo de Zvartnots
Zvartnots, o que restou das arcadas.
Capitel com águia, de Zvartnots
Capitel com águia, século VII.
Catedral de Etchmiadzin
Etchmiadzin, a Sé-Mãe.

Capítulo cinco

Noravank, entre falésias vermelhas

Noravank quer dizer mosteiro novo, e é de 1205. Tornou-se residência episcopal e panteão dos príncipes Orbelian, que governavam a região sob domínio mongol. Foi essa protecção que permitiu ao lugar florescer artisticamente num tempo em que quase tudo à volta era destruído.

A jóia do conjunto é Surb Astvatsatsin, de 1339, igreja-mausoléu de dois pisos mandada erguer por Burtel Orbelian. Assina-a Momik, arquitecto, escultor e miniaturista, que ali está sepultado. Ao segundo piso sobe-se por uma escada estreita, em consola, encostada à fachada.

O mosteiro de Noravank entre as falésias vermelhas do desfiladeiro de Amaghu
O desfiladeiro de Amaghu fecha-se à volta do mosteiro.
Igreja de Surb Astvatsatsin, em Noravank
Surb Astvatsatsin, obra de Momik, 1339.

Capítulo seis

Tatev, e a universidade que ardeu

Chega-se a Tatev pelo teleférico mais comprido do mundo, sobre o desfiladeiro do Vorotan. O nome tem duas explicações: uma vem de Eustateus, discípulo do apóstolo Tadeu, ali sepultado; a outra, popular, da lenda do arquitecto que, acabada a obra, terá gritado «Ter, tatev», Senhor, dá-me asas, e se lançou do precipício.

Entre 1390 e 1435 foi a cabeça intelectual do país. Hovhan Vorotnetsi trouxe para cá a sua escola, fugindo das campanhas de Tamerlão, e sucedeu-lhe Gregório de Tatev, que ensinou teologia, filosofia aristotélica, retórica, música, cópia e iluminura. Morreu em 1409 e é venerado como santo. A universidade foi destruída em 1435, numa incursão de Shah Rukh, e nunca renasceu.

O mosteiro de Tatev
A catedral de São Paulo e São Pedro, consagrada em 906.
O mosteiro de Tatev sobre o desfiladeiro do Vorotan
O mosteiro no seu esporão, sobre o Vorotan.

Capítulo sete

O norte: Haghartsin, Sanahin, Haghpat, Odzun

Haghartsin quer dizer dança das águias, por causa da águia que terá voltejado sobre a cúpula no dia da consagração. Está num vale fechado da cordilheira de Ijevan, e a igreja mais antiga, São Gregório, é do século X.

Na garganta do Debed estão Sanahin e Haghpat, os dois na lista do Património Mundial. Sanahin nasce de monges vindos de Bizâncio, fugidos das perseguições do tempo de Romano Lecapeno. Haghpat foi fundado em 976 pela rainha Khosrovanuysh, que mandou erguer a igreja pela longa vida dos dois filhos: a devoção resultou, um foi rei da Arménia em Ani e o outro fundou o reino de Lori, e ambos estão esculpidos em alto-relevo na fachada nascente, frente a frente, a segurar com as duas mãos uma maqueta da igreja.

Na galeria abobadada de Haghpat está o khachkar Amenaprkitch, o Todo-Salvador, de 1273, obra do mestre Vahram: a Crucifixão ao centro, os doze apóstolos em arcadas laterais, o sol e a lua, e no coroamento Cristo em mandorla entre Tadeu e Bartolomeu. Em Odzun, a tradição diz que São Tomé, a caminho da Índia, ordenou ali os primeiros presbíteros e deixou o lugar consagrado antes de haver igreja que o assinalasse.

Portal do mosteiro de Haghartsin
Haghartsin, a dança das águias.
Abóbadas do gavit de Haghpat
O gavit de Haghpat, onde se reunia o capítulo.
Khachkar Amenaprkitch, de 1273, em Haghpat
O khachkar Amenaprkitch, do mestre Vahram, 1273.
Cúpula de Haghpat vista de dentro
A cúpula, e a luz que desce pelas frestas.
Fresco medieval numa abside arménia
Fresco na abside.
Igreja da Santa Mãe de Deus, em Odzun
Odzun, século VI.

Como se lê

A arquitectura de um mosteiro arménio

Uma igreja arménia lê-se em três degraus, de nascente para poente, e cada degrau é mais baixo do que o anterior. Não é decoração: é uma ideia de mundo posta em pedra, e depois de a perceber já não se entra em nenhuma igreja da mesma maneira.

Três graus, do altar para a rua

Mais alto
Santuário

A abside semicircular a nascente, onde se celebra a liturgia. Ao contrário do uso bizantino, está elevada acima do resto da igreja e só o clero lá entra. Não há iconóstase: há um véu, o varaguyr, que se corre e se descerra.

Ao centro
Nave

O grau da assembleia baptizada, sob a cúpula, no ponto exacto em que os três níveis se deixam ver todos de uma vez, bastando levantar os olhos.

Mais baixo
Gavit

A poente, o grau do mundo. Aqui reunia-se o capítulo, decidiam-se litígios, ensinava-se e enterravam-se os benfeitores, cujas lajes tumulares formam o próprio chão que se pisa. Entrava quem não podia entrar mais adentro.

À mesa

O que se come, e porquê

Comeu-se muitas vezes ao ar livre, em mesas compridas debaixo de árvores. Na Arménia a comida é matéria de ritual antes de ser matéria de receita.

Khorovats

O prato nacional. Carne marinada em cebola, grelhada em espeto sobre brasas de videira e servida enrolada em lavash. Faz-se ao ar livre, em família, e quem grelha tem estatuto próprio.

Tolma

Folhas de videira recheadas com carne, arroz e ervas. A variante quaresmal, pasuts tolma, leva couve e sete leguminosas, sem carne, e é a mais própria da tradição arménia.

Harissa

Papa espessa de trigo e frango, cozida horas e batida até ficar filamentosa. Prato de festa e de luto ao mesmo tempo, ligado à memória de Musa Dagh.

Lavash

O pão fino cozido na parede do tonir, o forno de barro enterrado no chão. Serve de prato, de talher e de guardanapo.

Almoço do grupo numa mesa comprida debaixo de uma árvore
Almoço debaixo da árvore.
Celebração da missa numa varanda de madeira
Missa numa varanda de montanha. Houve celebração quase todos os dias.
O grupo da peregrinação, com o Monte Ararat ao fundo
O grupo, na planície do Ararat.
«Esta foi uma peregrinação muito especial e de grandes descobertas. Agradeço ao Padre António o seu cuidado na preparação dos textos de cada dia, bem como das suas explicações históricas e teológicas, e a quem idealizou e organizou esta viagem. Obrigada pelo companheirismo, bom humor e simpatia.»
Helena Arouca · no regresso, 30 de julho de 2026

Créditos

Quem fez esta viagem

As fotografias e as notas históricas desta página nasceram no grupo da viagem, escritas no próprio dia, muitas vezes à porta do monumento que descrevem. São publicadas com autorização dos autores.

Firmino Morgado

Fotografia e notas históricas. A quase totalidade das imagens desta página é sua, e é dele o texto que abre e o que explica a arquitectura do mosteiro.

Padre António Martins

Acompanhamento espiritual, celebrações diárias e a preparação dos textos de cada dia, com São Gregório de Narek e São Nerses Snorhali.

Arpine

Guia local na Arménia, do primeiro ao último dia. E o Otto Czernin, que idealizou e organizou a viagem.

Há de haver outra Arménia

Esta edição está fechada. O roteiro mantém-se, e a próxima partida abre a inscrição por lista de espera. Grupo reduzido, como sempre.